Terça-feira, 29 de Maio de 2007

O que é corpus?

Faz mó tempão que não atualizo este blog, mas hoje resolvi virar o jogo! Talvez ele ainda não seja atualizado freqüentemente, mas será atualizado sempre que possível!

Bom, lá no meu outro blog - Inglês na Ponta da Língua - mencionei um negócio chamado corpus. Decidi, então, postar aqui uma explicação rápida! Caso surja alguma dúvida é só perguntar!

De modo bem simples e geral, corpus é um banco de dados no qual ficam armazenados tudo o que é escrito e falado em uma língua. Pode ser em uma determinada região, país, cidade, etc. Os critério podem ser bem mais definidos (escolaridade, classe sócio-econômica, determinada profissão...)

Por exemplo, digamos que nós estamos interessados em saber como é usado o português falado na cidade de Belo Horizonte. Temos então a árdua tarefa de juntar jornais, revistas, textos e livros publicados pelas pessoas que moram em Belo Horizonte. Temos também de gravar programas de TV e rádio produzidos pelos moradores da cidade; podemos, ainda, pedir autorização de algumas pessoas para gravarmos suas conversas em supermercados, shopping centers, escolas, universidades, bares, etc. Imagine o trabalho! Depois de muito material coletado, passamos tudo para o computador e então temos um corpus do português falado e escrito em Belo Horizonte!

Diante deste banco de dados, teremos uma idéia da gramática da língua portuguesa falada em Belo Horizonte: Quais as palavras mais usadas? Que construções gramaticais são mais comuns? Que gírias, expressões, provérbios, etc são mais usados pelos mineiros de Belzonte!

Agora imagine fazer isto no Brasil todo! Muito trabalho né? A vantagem é que através de um projeto como este podemos ter um retrato verdadeiro da nossa língua portuguesa! Podemos entender os fenômenos lingüísticos que ocorrem e não ocorrem no nosso país.

Atualmente, muitos dicionários e livros de inglês são baseados em corpus. A vantagem é que os exemplos e textos usados nos livros são autênticos e mostram com fidelidade como certas palavras e construções gramaticais são usadas na língua inglesa.

Por exemplo, a voz passiva na língua inglesa é usada com muito mais freqüência em textos jornalísticos e literários. Ou seja, ela não é tão comum no inglês falado. Outro exemplo, a palavra "right" é mais usada no inglês falado do que no inglês escrito. E por último, "the" é a palavra mais usada na língua inglesa. Estas informações somente um corpus poderá me dar!

Continue aparecendo por aqui para entender melhor o que é um corpus! Por hora, isto é o suficiente.

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Leitura Recomendada:

Lingüistica de Corpus de Tony Berber Sardinha (Editora Manole)

Terça-feira, 10 de Abril de 2007

O que é Gramática?

De modo simples e rápido a melhor resposta a esta pergunta é:

o conjunto de regras que regulamenta o uso correto da língua falada e escrita

Quando um professor de línguas fala de gramática os alunos logo pensam naquele monte de regras estranhas que precisam ser decoradas, quase que de modo mecânico para que um dia eles sejam capazes de usar estas regras de modo natural. Claro que isto pode ocorrer, mas leva bastante tempo para que este código gramatical seja usado de modo natural.

Acontece que muitas pessoas esquecem que, lingüisticamente falando, há vários tipos de gramática: normativa, descritiva, gerativa, universal, transformacional, internalizada, histórica, etc, etc.

Para entender o Lexical Approach torna-se necessário compreender dois destes tipos de gramática: a normativa e a internalizada. Aqui por enquanto vamos falar da Gramática Normativa e em um outro artigo falaremos da Gramática Internalizada.

A Gramática Normativa é a gramática das regras. É aquela que vemos na escola! “É errado falar assim, o certo é falar assado.” Ou seja, “para mim fazer” está errado, o correto é “para eu fazer”. A Gramática Normativa é a que estipula o que é “certo” e o que é “errado”. Ela tem seu valor em sala de aula pois podemos ensinar nossos alunos como se comunicarem em situações mais formais da língua, situações nas quais torna-se necessário o uso do código gramatical tido como padrão pelos estudiosos da língua. Este negócio de “certo” e “errado” dá margem para muita discussão; mas, este não é o meu objetivo aqui!

Nas nossas aulas de inglês a Gramática Normativa resume-se, de certa forma, aos tempos verbais (present continuous, present perfect, will, going to, etc), preposições, ordem dos adjetivos, comparativo e superlativo, verbos regulares e irregulares no past simple e toda esta confusão de nomes que muitas vezes os próprios professores de língua inglesa acabam se confundindo!

A Gramática Normativa é extremamente importante para nós, professores! Afinal, é com ela que analisamos as sentenças produzidas por nossos alunos. Vira e mexe, a professora ou professor corrige seu aluno a nível de Gramática Normativa, pois é isto o que aprendemos a nossa vida toda. Ou seja, aprender uma língua resume-se a aprender e a gramática da língua alvo. Mas isto também já é um outro ponto de discussão!

Para encerrar, lembre-se o que é Gramática Normativa: a gramática do “certo” e do “errado”, a gramática que dá nome às coisas (present simple, past perfect continuous, passive voice, active voice, etc). Com isto em mente você entenderá logo porque o Lexical Approach enfatiza a aquisição de vocabulário (Lexical Items) e não da gramática.

No nosso próximo artigo falaremos da Gramática Internalizada. Então não perca!

Sábado, 7 de Abril de 2007

Léxico Mental: o que é?

Léxico Mental é algo que nos permite entender como o cérebro armazena as palavras que aprendemos em nossa própria língua. Para isto veja a atividade abaixo! Você encontrará nela algumas sentenças com espaços em branco, sua tarefa será a de completar os espaços com a primeira palavra que lhe vir à cabeça; desde que faça sentido na sentença. Papel e caneta na mão, vamos lá:

01. O presidente disse que todas as acusações não passam de intriga da ....................
02. Como o produto estava danificado, eu o devolvi e pedi o meu dinheiro de ...................
03. Eu acho que vale a .................. fazer um curso no exterior.
04. Se ela acha que vou ajudar, ela está redondamente ....................
05. Depois de muitos e muitos anos, um terrível segredo de família acabou .................... à tona.

Veja que com o contexto certo, o seu cérebro foi capaz de “puxar” a palavra que está faltando. As repostas mais freqüentes e esperadas são oposição, volta, pena, enganado e vindo, respectivamente.

Se alguém mudar as palavras nestas sentenças causará um efeito de humor. Ou seja, nós entenderemos o que a pessoa quis dizer, embora compreendamos automaticamente que algo está “estranho”. Como exemplo disto cito o fato de o Presidente Lula ter dito, algum tempo atrás, que algumas acusações ao seu governo não passavam de “futrica da oposição”. O simples fato de ele ter trocado a palavra “intriga” por “futrica” causou certos comentários sarcásticos, e bem humorados por parte da imprensa brasileira e de alguns críticos do governo.

Isto ocorre por que nosso Léxico Mental está em ação o tempo todo. Ou seja, o nosso cérebro possui um repositório – uma espécie de arquivo mental – que guarda estas expressões – conhecidas como Itens Lexicais (Lexical Items). Quando alguém a usa de modo diferente ou com outra palavra a reação é estranha e engraçada.

Isto ocorre porque de acordo com os neurolingüistas cerca de 75% a 80% do vocabulário (léxico) armazenado em nossa mente – ou seja, em nosso Léxico Mental – está organizado como expressões prontas, sentenças completas, frases fixas e semi-fixas. O restante (menos de 25%) é ocupado por palavras isoladas. É por esta razão que somos capazes de fazer a atividade acima sem maiores dificuldades. Experimente dar esta atividade a um estrangeiro que tenha algum conhecimento de língua portuguesa e veja como ele ou ela se sai.

Em resumo, seu Léxico Mental é uma parte do seu cérebro que armazena palavras isoladas, expressões prontas, frases fixas e semi-fixas, que usamos com maior freqüência em nossa língua. É graças ao seu Léxico Mental que você pode compreender o texto abaixo, embora estejam faltando algumas palavras:

“É totalmente desnecessário ___________ que todos nós precisamos evitar a poluição dos mananciais; devemos também economizar a ___________ tratada. Deixar a torneira ___________ enquanto escovamos os ___________ nos coloca na lista dos responsáveis. Atitudes de respeito e preservação do meio ___________, em particular o uso racional da água, podem ser desenvolvidas em atividades em sala de ___________. Podemos contribuir de várias formas para a preservação da água, elemento essencial à vida na ___________”

Escreva as palavras que estão faltando no texto acima e depois poste-as na área de comentários deste post (procure no final pé do artigo a palavra Comentários) e vamos ver como anda o Léxico Mental dos leitores e leitoras do blog! Você poderá se surpreender! Caso conheça algum estrangeiro que esteja no Brasil já há algum tempo, teste-o e veja o resultado!

Qual o papel do Léxico Mental no ensino/aquisição da língua inglesa? É isto que vamos ver no artigo “Léxico Mental no Ensino da Língua Inglesa”.

Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

É preciso ser formado para dar aulas?

Em uma comunidade do Orkut, destinada a professores de inglês, foi deixada a seguinte pergunta/comentário:

"olá professores, gostaria de saber se é preciso ter curso superior de letras para poder dar aula de inglês... eu terminei o curso do XXX e sempre amei inglês... pulei vários níveis pois estudava muito em casa... lia muitos livros em inglês... hoje eu falo inglês fluente e gostaria muito de ensinar... porém me sinto preparado de já entrar no mercado de trabalho pois acho que não vai ser muito proveitoso pra mim ter que ficar mais 4 anos na universidade..." [as partes em destaques são minhas mesmas; fiz também alterações ortográficas no texto do rapaz]

O comentário do jovem aspirante a professor me deixou bastante preocupado. Primeiro, devo reconhecer que é louvável a vontade dele em querer ser professor. Não é todos os dias que encontro pessoas que dizem: "quero ser professor". Muito menos ainda aqueles que dizem: "quero ser professor de inglês". Neste quesito, ele está de parabéns!

Segundo, sim é preciso ser formado em letras para dar aulas de inglês. Especialmente se você for dar aulas em escolas públicas. Neste caso exige-se o diploma, a licenciatura, etc. Por outro lado, as escolas de idiomas - sejam franquias ou não - não costumam exigir a tal formação acadêmica. Se o candidato à vaga de professor souber falar inglês fluentemente e tiver o perfil desejado, então terá grandes chances de ser contratado. Devo reconhecer aqui que algumas poucas escolas, em teoria, exigem a graduação de seus professores; porém, na prática isto não ocorre com tanta freqüência.

Uma terceira observação, o jovem diz falar inglês fluentemente. Excelente! Isto é realmente fantástico! Queria que muitos Professores de Inglês no Brasil falassem inglês fluentemente. Quem sabe assim a profissão não seria mais valorizada e respeitada! Esta questão de falar inglês fluentemente e ser Professor de Língua Inglesa será discutida com mais detalhes em outra oportunidade. Por ora, vamos deixá-la de lado!

O final do comentário é que me assusta. Veja que ele diz: "não vai ser muito proveitoso para mim ter que ficar mais 4 anos na universidade." Como assim!? Não vai ser proveitoso!? Então, terminar o cursinho de inglês na escola XXX já me habilita a ser Professor de Inglês? Que maravilha! Enfim, Segue abaixo a resposta que dei (com algumas poucas alterações):

"Você, estranhamente, diz que não será muito proveitoso ficar 4 anos na universidade! Curiosa sua afirmação! Digo isto porque qualquer pessoa que goste de desenhar casinhas e queira ser um arquiteto um dia vai achar super proveitoso entrar na faculdade e passar alguns anos estudando, se aperfeiçoando, procurando ser habilitado e ser um Profissional Sério e Respeitado.

No Brasil, infelizmente, as faculdades de Letras talvez deixem muito a desejar. Mas mesmo assim você aprenderá coisas como: métodos e abordagens de ensino, lingüistica, fonética e fonologia, lingüística aplicada ao ensino de língua inglesa, literatura da língua inglesa e americana, sociolingüística, gêneros lingüísticos, aprendizado e aquisição de uma outra língua, etc, etc. Ou seja, você vai receber (e vai ter de correr atrás também de) informações que o ajudarão a se tornar um verdadeiro ELT Professional, um excelente Professor de Língua Inglesa e não apenas mais um professor de inglês no cursinho XYZ.

É preciso encarar a Profissão Professor de Língua Inglesa com mais respeito e seriedade; não apenas como um bico, uma forma de manter contato com o inglês e de ganhar um dinheirinho extra. ser Professor de Inglês é ser Profissional e vai além de simplesmente termos terminado um curso de inglês, falarmos a língua fluentemente ou termos morado "30" anos em um país de língua inglesa. Ser Professor de Língua Inglesa não é só isto! É muito mais!

Caso você discorde do que foi dito aqui, basta deixar um comentário ou me enviar um e-mail. Terei um enorme prazer em saber a sua opinião!

Lexical Items (Itens Lexicais) - Parte III


Lexical Items (Itens Lexicais) - Parte II

Lexical Items (Itens Lexicais) - Parte I